O pai da igreja do século IV, Atanásio Sobre a Encarnação é um clássico cristão, lido amplamente por católicos, protestantes e ortodoxos orientais. Nele, o bispo e teólogo defende o motivo pelo qual a encarnação — o ato de Deus Filho assumindo a humanidade — foi necessária para nossa salvação.
Nesta obra, Atanásio aponta para a queda da humanidade – como as criaturas que foram feitas à imagem de Deus removeram Deus de seu conhecimento e, portanto, “assim como no princípio surgiram da não existência, agora estavam a caminho de retornar, por meio da corrupção, à não existência novamente”.
Mas isso não daria certo. Deus se viu em um dilema de tipos. Ele não podia “voltar atrás em Sua palavra… [que o homem deveria] morrer; mas era igualmente monstruoso que seres que uma vez compartilharam a natureza do Verbo perecessem e voltassem novamente à não existência através da corrupção.” A solução para esse dilema era a encarnação: “através desta união do Filho imortal de Deus com nossa natureza humana, todos os homens foram revestidos de incorrupção na promessa da ressurreição.” Assim, a frase mais famosa deste livro: O Verbo “assumiu a humanidade para que pudéssemos nos tornar Deus.” Não no sentido de que somos sem começo ou todo-poderosos, como Deus é, mas no sentido de que Deus pretende compartilhar algo de Sua natureza conosco como Seus filhos e filhas adotivos. Enquanto damos a devida atenção à morte e ressurreição de Jesus, alguém pode argumentar que Sua encarnação e nascimento são eventos que são tão importantes para nossa salvação. Talvez o Natal seja tão essencial como a Páscoa.
Outras seções deste tratado são menos famosas, mas também devem informar nossa compreensão do que o Natal significa. Por exemplo, em seus argumentos contra os pagãos gentios, Atanásio escreve sobre a derrota dos demônios por Jesus. Foi a essa derrota que Atanásio atribuiu a invasão de fronteiras e pacificação cristã. Pois, enquanto os gentios “serviam ídolos e ofereciam sacrifícios a demônios… nada podia afastá-los daquele espírito guerreiro”. Mas “desde que eles vieram para a escola de Cristo… eles deixaram de lado sua crueldade assassina e não têm mais espírito de guerra”.
Não foi assim com os gentios que permaneceram no paganismo. Pois aqueles dos dias de Atanásio eram “naturalmente selvagens em seus hábitos, e enquanto sacrificam aos seus ídolos, eles se enfurecem furiosamente uns contra os outros e não suportam ficar uma única hora sem armas”. Mas tudo isso mudou quando eles abraçaram o ensinamento de Cristo. Assim como Isaías havia previsto em Isaías 2:4, uma vez que os gentios ouvem o verdadeiro evangelho de Jesus, “em vez de lutarem entre si, eles pegam em armas contra o diabo e os demônios”.
Para Atanásio, não era mistério que paganismo e guerra andam de mãos dadas. Pois “os demônios estavam sempre colocando os homens para lutar uns contra os outros, temendo que, se cessassem a luta mútua, eles se voltassem para atacar os próprios demônios... e os expulsassem e zombassem de seu capitão, o diabo.” Em suma, a encarnação significou a recuperação das nações dos demônios que as estavam desviando, e o fim da guerra para aqueles que estavam dispostos a deixar seus deuses para trás e servir ao verdadeiro Senhor.
Não é de se admirar, então, que na profecia de Isaías sobre a vinda do messias, Ele seja chamado de “Príncipe da Paz”: pois quando o mundo realmente se voltar para servir a Cristo, “toda bota de guerreiro usada em batalha e toda vestimenta revolvida em sangue serão destinadas à queima, serão combustível para o fogo” (Isaías 9:5).


