Guerra no Irã: relembrando as lições da mudança de regime

Os cristãos precisam ser criteriosos quando nossos líderes convocam outra guerra. Nossas últimas intervenções em lugares como o Iraque e a Síria não trouxeram estabilidade nem libertação. Elas devastaram antigas comunidades cristãs que sobreviveram por quase dois milênios. Portanto, antes de repetirmos o ciclo, precisamos parar e considerar o que está realmente em risco: a profunda história cristã do Irã, a realidade por trás das justificativas apresentadas e a resposta que nossa fé realmente nos chama a dar.

O Irã, assim como grande parte do Oriente Médio, não se parece em nada com a versão que os americanos recebem de Hollywood ou dos noticiários noturnos. Sim, os cristãos no Irã enfrentam perseguição real: prisões, vigilância, encarceramento e até morte. Mas o que quase nunca chega às manchetes é a outra metade da história. Desde 1979, tanto as igrejas étnicas legalizadas quanto a igreja clandestina de língua persa cresceram para quase um milhão de fiéis. Para quem conhece a história do cristianismo no Irã, isso não deveria ser surpresa. A igreja lá sempre cresceu sob pressão. Em certo momento, foi o coração pulsante da missão global, enviando o evangelho para o Oriente muito antes de a Europa sequer se imaginar o centro do cristianismo.

O cristianismo está presente no Irã desde o início da igreja. Atos 2 menciona partos, medos e elamitas como alguns dos primeiros povos a ouvir o evangelho no Pentecostes e a levá-lo de volta às regiões que compõem o Irã moderno. Ao longo dos séculos seguintes, esse pequeno grupo cresceu e se tornou uma igreja distintamente persa, centrada em Selêucia Ctesifonte, a capital do Império Persa. Essa igreja se tornou a Igreja do Oriente, um movimento missionário que levou o evangelho pela Rota da Seda até a Ásia Central, a Índia e até mesmo a China.

O Islã chegou no século VII e mudou o status da Igreja, mas não sua existência. Os cristãos se tornaram uma minoria restrita, mas persistiram por séculos administrando escolas, traduzindo as Escrituras e mantendo mosteiros. O verdadeiro declínio ocorreu muito mais tarde, quando a dinastia Safávida impôs o Islã xiita e empurrou os cristãos para enclaves étnicos.

Após a revolução de 1979, as igrejas de língua persa foram fechadas e os pastores presos. Contudo, à sombra da repressão, uma igreja clandestina cresceu silenciosamente e hoje conta com centenas de milhares, talvez até mais de um milhão de fiéis. Apesar da vigilância, das batidas policiais, das prisões e da constante ameaça de morte, o Irã abriga um dos movimentos cristãos que mais crescem no mundo. 

Antes da invasão de 2003, o Iraque contava uma história semelhante. Quase 1.5 milhão de fiéis cujas raízes remontavam aos primeiros séculos da Igreja. Eles cultuavam em aramaico, a língua de Jesus. Viviam em cidades como Mosul e Bagdá, onde mosteiros cristãos existiam há mais de mil anos. Quando os EUA derrubaram Saddam Hussein, isso não trouxe liberdade para essas comunidades. Desencadeou o caos. Milícias preencheram o vácuo de poder. Igrejas foram bombardeadas. Padres foram sequestrados e assassinados. Centenas de milhares de famílias fugiram. Hoje, restam menos de 200,000 a 300,000 cristãos. Bairros inteiros que antes ecoavam com liturgias ancestrais agora estão vazios. Os cristãos do Iraque não foram alvos porque os muçulmanos passaram a odiá-los repentinamente. Eles foram destruídos porque a guerra desestabiliza tudo, e as minorias são sempre as primeiras a serem varridas pelo colapso.

A Síria conta a mesma história com nomes diferentes. Antes da guerra civil, os cristãos viviam com certa estabilidade sob o regime autoritário, porém previsível, de Assad. Não eram livres no sentido ocidental, mas eram protegidos. Praticavam sua fé abertamente, administravam escolas e mantinham comunidades que traçavam sua linhagem até os apóstolos. Quando a guerra começou, a Síria se fragmentou. Cristãos agora são sequestrados, estuprados, vendidos em mercados de escravos a céu aberto e forçados a fugir de suas casas ancestrais. Cidades como Maaloula foram esvaziadas. Menos de 400,000 mil cristãos permanecem em uma terra que outrora abrigava mais que o dobro desse número. 

Tanto no Iraque quanto na Síria, o padrão foi o mesmo: os Estados Unidos e outras potências estrangeiras atacaram direta e indiretamente por meio de uma complexa rede de grupos aliados. Em determinado momento, milícias apoiadas pelo Pentágono lutavam contra milícias apoiadas pela CIA no mesmo campo de batalha. A busca por uma mudança de regime foi justificada por falsas alegações e desestabilizou essas nações, deixando duas antigas comunidades cristãs indefesas no caos. É por isso que não podemos nos precipitar em outro conflito guiados por slogans ou pelo medo. Precisamos examinar com sobriedade as razões apresentadas para esta guerra.

Sensacionalismo profético: os cristãos sempre foram tentados a retratar inimigos geopolíticos como personagens de um drama apocalíptico. Mas transformar o Irã em "Gogue e Magogue" não é discernimento, é medo disfarçado de profecia. Substitui o povo iraniano real por uma caricatura apocalíptica e batiza nossas ansiedades como percepção divina.

“Defender Israel”: Muitos crentes presumem que apoiar militarmente o Israel moderno seja um mandamento bíblico. Mas o Novo Testamento nunca ordena que nações gentias declarem guerra em nome de Israel. Quando os cristãos americanos tratam a geopolítica como teologia, muitas vezes é a igreja local — judaica, muçulmana e cristã — que sofre as consequências.

"Tudo começou em 1979": Essa história começa muito antes da crise dos reféns. O golpe de Estado de 1953, apoiado pelos EUA, que derrubou o governo eleito do Irã, preparou o terreno para décadas de desconfiança e hostilidade. Fingir que a história começou em 1979 nos permite moralizar um conflito que ajudamos a criar.

“O Irã está numa corrida para obter uma bomba”: o aiatolá Khamenei emitiu um parecer religioso contra armas nucleares, e o acordo nuclear de 2015 estava comprovadamente limitando o programa iraniano até a retirada dos EUA. A crise atual não é resultado da inevitabilidade do programa iraniano, mas sim de um colapso diplomático, em grande parte causado por nós mesmos.

Nacionalismo moralista: A crença de que “Deus está do nosso lado” é a tentação mais antiga na política de guerra. Ela legitima a violência, nos cega para o custo humano e transforma o interesse nacional em um mandato divino. Uma vez que assumimos que a causa de nossa nação é a causa de Deus, não há limites para o que justificaremos.

Por trás dessas justificativas, esconde-se uma verdade mais dura: aqueles que clamam pela guerra nunca são os que arcam com o seu custo. Em todo conflito, são os pobres, os jovens e os indefesos que sangram. A guerra é o luxo dos ricos, pago com o sangue dos pobres e vulneráveis. Se os cristãos não conseguirem enxergar além do romantismo da violência, abençoaremos o sofrimento daqueles a quem Cristo nos ordena amar.

As Escrituras nos chamam a um ideal diferente. Jesus rejeitou a retaliação e confiou o julgamento somente a Deus. Pedro disse aos crentes perseguidos para suportarem o sofrimento sem vingança. Paulo advertiu a igreja para não se conformar com os padrões deste mundo, padrões que sempre justificam a violência em nome da paz. A verdade incômoda: tanto os Estados Unidos quanto seus adversários alegam estar protegendo os vulneráveis ​​quando travam guerras. A lógica é a mesma em ambos os lados, mas os cristãos são chamados a quebrar esse ciclo. 

O chamado ao amor ao inimigo é o ponto em que muitos cristãos silenciosamente se desviam do caminho de Jesus. É fácil amar as vítimas; é muito mais difícil amar as pessoas que nos ensinaram a temer, mas o evangelho não nos dá uma desculpa. O amor de Deus não se limita a fronteiras nacionais ou narrativas políticas. Ele se estende aos nomes que preferiríamos não pronunciar: Saddam, Gaddafi, Assad, Khamenei. Estende-se ao soldado iraniano na linha de frente, à mãe em Teerã tentando proteger seus filhos e ao pastor clandestino que sabe que pode ser preso a qualquer momento. Todos eles são portadores da imagem de Deus. Todos eles são pessoas pelas quais Cristo morreu.

O amor ao inimigo é a forma mais exigente de discipulado. Requer recusar-se a deixar que a propaganda molde nossa ética ou que o Estado nos diga quem é considerado humano. Num mundo onde todos os lados justificam a violência como uma necessidade moral, o amor ao inimigo é a única postura que nos impede de sermos engolidos pela lógica da guerra. Este é o mesmo caminho estreito que os anabatistas, menonitas e outras igrejas pacifistas da história tentaram trilhar, recusando a espada mesmo quando todas as nações ao seu redor alegavam a bênção de Deus para suas guerras.

Se o pensamento cristão ocidental foi moldado pelo medo e pela guerra, então o primeiro passo é recusar esse reflexo. Não precisamos aceitar as narrativas que nos impelem à violência ou que equiparam o interesse nacional a um mandato divino. Em vez disso, podemos escolher o trabalho mais lento e árduo do discernimento. Podemos nos recusar a deixar que manchetes ou pressões políticas decidam quem é o nosso próximo. Podemos orar por aqueles que nos dizem para temer, defender a paz quando outros exigem escalada e lembrar da igreja global. 

O que podemos fazer agora é retornar ao antigo caminho cristão da resistência pacífica. Isso significa falar com clareza quando nossos líderes se encaminham para a guerra. Podemos insistir para que nossos representantes eleitos busquem a desescalada, a diplomacia e a proteção das comunidades vulneráveis, em vez de outro ciclo de destruição. Dentro da Igreja, precisamos corrigir as narrativas que tentam moldar esse conflito como necessário para a volta de Jesus. A vinda de Cristo não é um ritual de convocação, e nenhuma nação pode sacrificar os civis de outra para acelerá-la.

O silêncio em momentos como este não é neutralidade. É consentimento. Falar é estar ao lado da igreja global, ao lado daqueles que foram criados à imagem de Deus e semelhança, apanhados no fogo cruzado, e ao lado do Rei crucificado que chama o Seu povo à verdade, à coragem e à paz.

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