James Lindsay frequentemente alerta sobre a "direita consciente" — aqueles alinhados com a direita política que abandonam os princípios em favor da tribo, trocam a verdade por vantagem política e usam as mesmas táticas da "esquerda consciente" para chegar lá. E acho que ele tem razão em se preocupar. Mas a ironia é forte: porque quando ele respondeu aos críticos da guerra de Israel em Gaza exigindo que justificassem sua estrutura moral contra o comportamento do Hamas, ele não estava defendendo princípios — ele estava fazendo exatamente o que alerta contra.
Para ser claro, nem eu nem a LCI defendemos o Hamas ou suas atrocidades. Israel tem o direito legítimo de autodefesa, e responder a agressões é compatível com a Teoria da Guerra Justa. Mas, com muita frequência, as pessoas invocam esse direito, ignorando o restante do que a doutrina exige. É por isso que vale a pena dar um passo atrás e definir claramente o que a Teoria da Guerra Justa realmente é.
Vamos conversar a respeito disso.
O que é a teoria da guerra justa?
A Teoria da Guerra Justa não surgiu do nada — é uma tradição profundamente cristã, enraizada nas Escrituras, na teologia e no raciocínio moral. Não é um slogan político. Não é um porrete tribal. É um esforço secular de pensadores cristãos para lidar com uma das questões morais mais difíceis: quando, se é que alguma vez, é justo ir à guerra?
A forma mais antiga de pensamento sobre a Guerra Justa vem de Santo Agostinho, nos séculos IV e V. Agostinho não era um belicista. Ele viveu o colapso de Roma e ficou profundamente consternado com a violência e o derramamento de sangue. Mas também reconheceu que, em um mundo decadente, a justiça às vezes exige força. O que ele estabeleceu foi uma estrutura cuidadosa e humilde: a guerra só é justa se visa restaurar a paz, punir o mal grave e proteger os inocentes. Não por conquista. Não por orgulho. Não por vingança.
Mais tarde, São Tomás de Aquino, no século XIII, expandiu e refinou essa doutrina em sua Summa Theologica, organizando-a em três princípios-chave:
- Apenas autoridade (somente governantes legítimos podem declarar guerra),
- Justa causa (deve haver um erro real e grave a ser corrigido) e
- Intenção correta (a guerra deve ter como objetivo a paz e a justiça, não a vingança ou a dominação).
Essa base foi construída por juristas e filósofos cristãos ao longo dos séculos — pessoas como Francisco de Vitória e Hugo Grotius — que trouxeram essas ideias para as discussões sobre direito internacional e ética. Até mesmo pensadores iluministas se inspiraram nessa tradição moral para moldar o que se tornaria o direito humanitário moderno e as regras da guerra.
O ponto é: A Teoria da Guerra Justa tem origens cristãs. É uma tentativa profundamente moral de conter o mal num mundo onde o mal existe. Mas essa contenção deve ser consistente. E deve se aplicar a todos.
O que a guerra justa requer
A Guerra Justa não é "seu time é bom, o time deles é ruim". Não se trata de justificar a violência contra as pessoas que você gosta. Trata-se de fazer perguntas difíceis antes e durante a guerra.
As categorias tradicionais se dividem assim:
- jus ad bellum (justiça em ir à guerra):
Justa causa
Autoridade legítima
Intenção correta
Último recurso
Proporcionalidade
Chance razoável de sucesso - Jus in Bello (justiça durante a guerra):
Distinção entre combatentes e civis
Proporcionalidade na força utilizada - Jus post bellum (justiça após a guerra):
Trabalhar em prol de uma paz duradoura, não de uma ocupação permanente
Buscar a responsabilização e não a impunidade
Reconstruir o que foi destruído
Promova a reconciliação, não ciclos de vingança
Se você não está seguindo tudo isso — tudo isso — então não está travando uma guerra justa. Você está apenas travando uma guerra.
Israel atendeu a esses padrões?
Não.
Comecemos com o Jus ad bellum. Israel esgotou as alternativas pacíficas? Não. Durante décadas, Israel:
Moderados palestinos minados
Apoiou discretamente o Hamas como uma cunha política
Manteve um bloqueio contínuo de Gaza
A expansão dos assentamentos viola o direito internacional
Rejeitou propostas sérias de paz e, em vez disso, redobrou o controle
Nada disso justifica as ações do Hamas. Mas questiona a alegação de que Israel fez tudo ao seu alcance para evitar a guerra. Isso é uma exigência da Teoria da Guerra Justa — não uma sugestão.
E quando se trata de Jus in Bello, vemos:
- O número de civis mortos chega a dezenas de milhares,
- Bairros inteiros arrasados,
- Hospitais e campos de refugiados bombardeados,
- Fome em massa usada como ferramenta de guerra.
Isto não é moralmente superior. Não é proporcional nem justo.
Argumenta-se frequentemente que o Hamas se esconde entre civis e usa escudos humanos, tornando as baixas civis inevitáveis. Embora a frequência ou o grau em que isso acontece sejam geralmente exagerados, é verdade que às vezes é esse o caso e tais situações apresentam desafios reais – assim como toda guerra urbana. No entanto, a Teoria da Guerra Justa não dá um cheque em branco para matar civis simplesmente porque o inimigo é imoral ou porque é mais difícil lutar contra o inimigo evitando baixas civis. A presença de escudos humanos não elimina a obrigação de discriminar entre combatentes e não combatentes ou de usar força proporcional. Na verdade, aumenta a responsabilidade moral de agir com moderação. Como cristãos, devemos nos lembrar das palavras de Paulo em Romanos 12 – não podemos vencer o mal com o mal.
Então Israel pode responder ao Hamas?
Quero deixar claro aqui. Não estou dizendo que o fato de Israel não ter esgotado todas as alternativas pacíficas ao longo dos anos não significa que ele perca o direito à autodefesa hoje. Responder a um ataque como o do Hamas em 7 de outubro é moralmente justificado. Mas se Israel quer que essa resposta seja verdadeiramente justa, também deve considerar como suas políticas de longo prazo – assentamentos, bloqueios e manipulação política – alimentaram as condições que levaram à guerra. A Teoria da Guerra Justa exige mais do que força reativa; exige uma busca por justiça que vise à paz. Se Israel continuar a tratar os palestinos injustamente enquanto responde militarmente ao Hamas, não apenas desrespeitará o padrão moral, como também garantirá que o ciclo de violência se repita.
A justiça não pode ser seletiva
O que James Lindsay está fazendo — o que muitos outros estão fazendo — é exigir que apenas o Hamas seja submetido a padrões morais. Mas não é assim que a justiça funciona. Não se pode citar Santo Agostinho quando se quer condenar o terrorismo e ignorá-lo quando se quer desculpar crimes de guerra.
Ou você acredita que a justiça é universal, ou não acredita em justiça.
Você não precisa ser "anti-Israel" para dizer que Israel violou esses princípios. Basta ser honesto. É preciso ser coerente. É preciso se preocupar mais com a moralidade do que com a lealdade tribal.
A Alternativa Cristã e Libertária
De uma perspectiva cristã libertária, defendo duas verdades:
- As nações têm direito à autodefesa,
- Esse direito não é um cheque em branco.
Deve ser exercido com moderação moral. Com responsabilidade. Com sabedoria.
Jesus nos disse para amarmos nossos inimigos. Ele não disse "não protejam os inocentes", mas disse para buscarmos a paz. E esse mandamento não é suspenso quando estamos com raiva ou com medo. Aliás, é exatamente nesse momento que somos testados.
Como libertário, também sei que o Estado frequentemente usa a guerra para expandir seu poder, mascarar suas falhas e fabricar consentimento por meio do medo. E, como cristão, acredito que a verdadeira batalha não é contra a carne e o sangue, mas contra as forças espirituais do mal. Isso não significa que nunca lutamos — mas significa que nunca devemos glorificar a guerra ou permitir que ela consuma nossos princípios.
A Verdadeira Ironia
James Lindsay alerta sobre a “direita consciente” — tribalismo envolto em retórica moral, sacrificando princípios em prol do poder.
A ironia? É exatamente isso que ele está fazendo aqui.
Exigir que padrões morais se apliquem apenas aos seus inimigos é o truque mais antigo do manual autoritário. Não se trata de clareza moral. É conveniência moral.
E um dos exemplos mais flagrantes disso é o argumento de que "todos os palestinos são cúmplices" ou que "elegeram o Hamas, então merecem o que recebem". Isso não é um raciocínio de "Guerra Justa". É uma punição coletiva. E é explicitamente rejeitado tanto pela doutrina moral cristã quanto pela tradição da Guerra Justa. Crianças não votaram no Hamas. Refugiados em campos não votaram no Hamas. Muitos moradores de Gaza que votaram o fizeram há quase duas décadas sob coação, em um sistema político falido (e mesmo assim, o Hamas não conquistou a maioria em NENHUM distrito e só conquistou o controle total pela força).
Então sim, James, vamos falar de guerra justa
Não tenho medo de "tolerar". Aqui está a minha teoria. Ela se baseia nas Escrituras, na tradição cristã, na filosofia moral e na crença de que a justiça deve ser aplicada a todos — mesmo quando for politicamente inconveniente.
A questão é: você ainda acredita em princípios? Ou é apenas mais um partidário exigindo que nos calemos e sigamos a linha?
Porque eu não vou.
Ficarei onde Cristo nos chamar para ficar: pela paz, pela verdade e por uma justiça que nunca se curva ao poder.


