Recentemente, um professor de psicologia chamado Erik Sprankle declarou que a Virgem Maria pode não ter dado "consentimento" quando o anjo Gabriel lhe disse que ela daria à luz Jesus. Além de mostrar a ignorância total que é avassaladora na academia, o professor provou o quanto o pensamento contemporâneo é possuído por pensamento de grupo ideológico e identitário.
Na realidade, é difícil para ideólogos moldar um mundo assombrado pela crucificação à sua própria imagem, pois Cristo já havia destruído o próprio fundamento da ideologia: a força violenta. A história do nascimento virginal fala de algo notável e sem precedentes na história humana. Ela nos dá uma perspectiva completamente nova sobre o papel dos seres humanos criando voluntariamente uma sociedade subterrânea que acabaria por remodelar o mundo à imagem de Jesus Cristo.
Nos tempos antes de Cristo e fora do povo hebreu, o mundo tinha sido amplamente dominado por grandes narrativas que davam poder a turbas de linchamento e, assim, deram origem à noção de "o poder é o direito". Hoje, conhecemos essas narrativas como os mitos clássicos do mundo antigo. Esses mitos, como o nascimento de Dionísio, contêm evidências que revelam o empoderamento da multidão acusadora em antigas sociedades pagãs.
Em seu livro 'Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo', René Girard explica as origens violentas dos mitos pagãos do nascimento:
Histórias desse tipo sempre envolvem mais do que uma pitada de violência. Zeus ataca Semele, a mãe de Dionísio, como uma fera de rapina sobre sua vítima, e, na verdade, a atinge com um raio. O nascimento dos deuses é sempre uma espécie de estupro... Essas monstruosas uniões entre homens, deuses e feras estão em estreita correspondência com o fenômeno da violência recíproca e seu método de se resolver. O orgasmo que apazigua o deus é uma metáfora para a violência coletiva.
É quase como se o relato do nascimento virginal do Novo Testamento tivesse sido escrito como uma resposta aos mitos de nascimento dos deuses gregos. Nos evangelhos, o status de Maria, diferentemente do de Semele, é elevado por Deus ao de nobreza. No evangelho de Lucas, o anjo Gabriel cumprimenta Maria dizendo: "Ave, ó agraciada, o Senhor está contigo!" Deus faz saber a Maria que ela dará à luz seu filho, ao que Maria responde: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra." Há uma completa ausência de violência e coerção na história do nascimento virginal. Não há nenhum elemento de força.
Durante séculos, a humanidade operou sob um princípio de sacrifício ritual, onde o sacrifício de um pode trazer a unidade temporal de muitos. Nossa sociedade moderna, apesar da falta de mitologias extravagantes, ainda opera sob esse mesmo princípio. Nós nos dividimos em facções e estamos sempre em busca daquele sacrifício, daquela execução que nos levará mais perto da utopia. Encarceramento em massa de inocentes para nos livrar do crime, aborto para trazer estabilidade familiar e guerra para trazer paz. Esta é a história do estupro de Semele, de alcançar o bem por meio da coerção. O mortal e vulnerável se torna nada mais do que um meio para um fim. Não é assim com o Deus da Bíblia.
Quando Cristo nasceu, o canto podia ser ouvido descendo do céu. “Glória a Deus nas alturas”, os anjos cantaram, “E paz na terra, boa vontade para com os homens!” A imagem de uma humilde adolescente dando à luz o Filho de Deus, entre animais e pobres pastores em uma manjedoura, vira os poderes e principados do mundo de cabeça para baixo. Isso era Deus e a raça humana trabalhando juntos para criar um reino de paz na terra, um que o profeta Daniel previu que sobreviveria aos impérios dos homens.
O Deus da Bíblia traz ordem e paz por meio da misericórdia e do auto-sacrifício. O mortal e o vulnerável são proclamados como portadores da imagem de Deus, e Maria recebe a honra de se tornar a mãe da divindade. A jovem Maria aceita essa honra e, ao fazê-lo, ela se torna uma precursora da morte de seu próprio filho na cruz. Essa dança divina de auto-sacrifício se completaria quando Maria, uma mulher idosa agora, ficaria aos pés da cruz na qual seu filho morreria pelos pecados do mundo.
Com o nascimento de Cristo, Maria é agraciada com o privilégio de se tornar a mãe do divino imperador Jesus. Ela representa a humanidade voluntariamente participando com Deus em trazer o reino de Deus a um mundo cheio de violência e degeneração. O nascimento de uma criança significa como o reino de Jesus minaria a natureza totalitária e de governo da multidão em nossa era. O caminho de Deus é o auto-sacrifício — a disposição de ser expulso dos confins do poder mundano — de tal forma a desconstruir e expor o mal do poder mundano para toda a humanidade, permitindo-nos assim abandonar a violência e abraçar a misericórdia.
A misericórdia só pode acontecer quando vemos os outros como filhos de Deus, e quando pensamos em crianças, vemos o menino Jesus, a inocência e a vulnerabilidade personificadas, deitado no seio de uma mãe humana. Nada é tão perigoso para uma máquina de sacrifício quanto uma criança pequena e sua mãe carregando dentro de si um valor avassalador — a centelha da divindade. O nascimento de Cristo, como a crucificação, nos convoca a tratar nosso próximo como faríamos com o menino Cristo e sua mãe Maria; nos convoca a imitar essas duas brilhantes personalidades abnegadas e, por meio da imitação, nos convoca à compaixão. O modo como Zeus estuprou Sêmele está morto, e nada, nem mesmo nossa preocupação ideológica de dentes de sabre com as vítimas, pode substituí-lo, exceto o autossacrifício, a negociação voluntária e a misericórdia.


